O biótipo da pessoa faz diferença na escolha pela bike 29?
“Antigamente” eu poderia dizer que sim. Seria somente para
ciclistas altos, justamente por só acharmos quadros acima de 17'' e
ninguém entender nada sobre o novo formato. Mas com o passar dos anos,
muitos testes foram executados para corrigir e chegar na geometria e
padrão correto de uma verdadeira bike 29. Os estudos e as tecnologias
voltadas para tal evoluíram bastante por parte de alguns fabricantes,
fazendo com que estes saíssem na frente diante, com variações de quadros
menores.
Neste contexto, não tem mais história que só serve para pessoas
altas. Um exemplo claro foi a conquista do bronze da americana Willow
Koerber* no mundial de 2009 (primeiro pódio de uma 29 em mundiais).
Koerber é muito baixa e ainda conseguiu andar na frente durante as
primeiras voltas. Em 2010 ela conquistou o bronze novamente no mundial;
não competiu em 2011 porque se casou com Myles Rockwell* e ficou
grávida. Mas a escolha e o uso da bike 29 depende muito da adaptação.
Alguns pilotos baixos não estão se adaptando ainda.
A escolha de uma bike 29 não vai fazer ninguém ganhar corrida.
Antes disto, o ciclista precisa estar preparado, pois o velho ditado:
“bike leve ou bike top não ganha corrida”; mas ajuda. Esse ditado só não
é válido àqueles ciclistas que estão no topo, já que os mesmos estão
muito igualados e um simples peso a mais faz diferença. Porém, digestão
errada na noite anterior pode comprometer sua performance.
Aqui no Brasil, muita gente vem questionando isso: qual a melhor
bike? De fato, as rodas grandes são superiores em tudo, apenas não são
no arranque (física). Todos sabem que uma roda maior demora mais para
embalar, apenas isso. Se vê que essa teoria já vem sendo questionada
pela dinâmica e fluência das rodas gigantes: elas conseguem excluir o
atraso desse arranque metros depois. Uma prova viva e real foi a sétima
etapa da Copa do Mundo de MTB em 2011, quando Jaroslav Kulhay venceu
Nino Schurter* no sprint de chegada: bike full 29 x hard tail 26. O que
dizer?
Qual é o melhor e o pior tipo de terreno e topografia para a bike 29?
Não tem o melhor terreno para uma bike 29. Antes, os quadros não
estavam preparados para um circuito mais travado, mas hoje os
fabricantes oferecem modelos atualizados a este problema. Acabou a velha
história de que não rende. Sobre as subidas... sobem muito melhor: mais
confortável e constante; palavras dos milhares usuários. Na descida,
uma avalanche. Não precisa escolher a melhor linha. Já no plano, eu
costumo dizer que a bike 29 é a speed do barro. Se alguém ainda
questiona que existe um terreno que ela não anda bem, todas as dúvidas
ficaram no último mundial. Os suíços fizeram o mais difícil circuito da
história em mundiais: raízes, drops, rock gardens, singletrack travado,
subidas curtas e íngremes (teste de arrancada) e longos trechos de
subidas. Como se não bastasse estas dificuldades, choveu muito, dando
uma cobertura especial de lama, muita lama. O resultado foi a vitória de
uma bike 29 full suspension, com o tcheco Jaroslav Kulhavy. Eu digo que
foi o tiro de misericórdia a todos aqueles que falavam coisa com nada
em relação as rodas gigantes sem nunca terem testado uma.
Quando as 29 apareceram, muitas
brigas surgiram: amantes x tradicionalistas; com a famosa neura do peso.
Vários vídeos na internet respondem todas as dúvidas em relação ao
rendimento ou distância percorrida das duas bicicletas. Tal fato é
comprovado em circuitos que elevam diversos graus de dificuldades, em
que uma câmera e cronômetro são acionados para qualquer um tirar suas
conclusões. E esses testes são verdadeiros, pois além da linha do
circuito, medem pressão sanguínea, humidade do ar, temperatura, etc.
Tudo isso para que não tenha uma margem favorável e erros físicos.
Quem compra uma bike 29 tem mais dificuldade para encontrar peças de reposição ou fazer uma manutenção?
Hoje não temos mais problemas. Os importadores e distribuidores no
Brasil já aceitaram o formato como realidade e investem pesado para
abastecer suas demandas. Já temos lojas no Brasil que possuem 50% de
seus produtos voltados para bikes 29”. Alguns delas estão se
especializando apenas em 29” e já pensam em acabar com as 26”, o que eu
acho errado. Sobre a manutenção, estamos bem. A indústria mecânica
também oferece ferramentas específicas. O conhecimento em torno da
manutenção das suspensões, rodas, raios e pneus permanecem iguais,
apenas o tamanho mudou. Uma coisa que os usuários de 29 precisam saber é
sobre a calibragem dos pneus que são diferentes e algumas pessoas ainda
não aprenderam. Muitos usam as mesmas pressões das 26”, o que vem
ocasionando empenos na rodas por estarem muito duros. Antes de pedalar,
verifique a calibragem.
O brasileiro ainda está
aprendendo com as bikes 29. Muita coisa é diferente, principalmente nas
rodas. O simples fato de usar um pneu mais fino pensando que vai andar
mais do que um pneu mais grosso está errado. O poder da 29 está na área
de contato e sua transposição dos obstáculos, se você tirar isso dela
erradamente, a bike não vai render. Toda teoria das 29 está voltada para
as rodas. Assim como nos pneus 26, o peso do atleta influencia, mas nas
rodas 29 não muito. Se o biker souber usar a calibragem correta e o
pneu para tal terreno, tem um grande aliado para o sucesso e a vitória.
Às vezes, o pneu mais alto (fino
ou grosso) para um ciclista pesado vai render a ele um conforto e um
giro muito melhor do que um baixo; mesmo que o pneu seja pesado. E se o
ciclista leve vier dizer que não precisa de pneu grosso ou alto, ele
está completamente errado. Em uma bike 26, peso leve dificulta na tração
em certos terrenos e casos, e por isso precisa de um pneu com mais
birro. Já na 29, o ciclista leve só precisa baixar a calibragem, seja
qual for o desenho ou medida. E se usar um pneu baixo e grosso, melhor
ainda. Agora se você não sabe que o pneu tem três medidas, vai precisar
aprender antes de executar as calibragens e escolhas ideais.
“Muitos ciclistas” estão usando
38 a 40 psi. Se for pedalar em estradas de terra batida ou asfalto, pode
até ser. Mas numa trilha, pode usar até 25 psi. E o rendimento será
melhor do que um pneu com 38 psi. Alguns pneus de bike 29 tem o
favorecimento de calibragens baixas, principalmente se usarem com o
líquido anti-furo e sem câmaras. Experimente corretamente!
Fale sobre o uso da 29 para cicloturismo.
O cicloturismo vem mudando sua forma de uns anos para cá, saindo
mais dos tradicionais asfalto e estradão, e invadindo as trilhas mais
difíceis como nas expedições. Com novos desafios, alguns aventureiros
dos Estados Unidos passaram a usar as bikes 29 em suas jornadas e
publicar relatos interessantes do uso das mesmas, elogiando o
comportamento perante às pedaladas (viagens). O fato é que uma bike 29 é
mais estruturada (tubulação) do que uma bike híbrida. Com os pneus mais
grossos, a bike passou a transpor obstáculos nestas aventuras sem
deixar o piloto desequilibrar e suportar mais peso, mantendo uma melhor
dinâmica do giro da roda e, principalmente, evitando furos, a neura dos
cicloturistas. Em relação ao uso de alforjes, não são todos os quadros
que têm furações do tipo (apenas os mais antigos). Mas seguindo um novo
nicho de mercado, alguns fabricantes já estão refazendo modelos
intermediários (linhas básicas) com estas furações.
Aqui no Brasil, o cicloturista
ainda tem dificuldades em achar pneus de híbridas ou acessórios
específicos para tal. Temos poucas lojas específicas, mas ainda é muito
limitado a expansão da “modalidade” em outros locais do país em relação
ao mountain bike. Por isso que surgem as adaptações e gambiarras numa
situação de emergência.
Fale sobre o uso da 29 na cidade.
Os importadores e distribuidores do Brasil nunca focaram para as
bicicletas híbridas. São poucos aqueles que oferecem modelos, mas com a
mobilidade urbana em alta, o mercado virou os olhos e agora todos querem
comer uma “fatia do asfalto”. Ainda na falta das híbridas, muitos
passaram a aderir à roda gigante. O conforto dos pneus mais grossos
(contra buracos), a facilidade de pilotar, suspensão mais robusta e o
uso da bike em qualquer situação, são os principais fatores. Sem falar
do costume e adaptação da antiga bike 26 e o próprio uso: semana cidade e
findi trilha. Não vejo desvantagem para uso de uma bike 29 nos centros
urbanos, apenas o preço no mercado.
Em quais casos, na sua opinião, não é uma boa troca deixar de lado a 26 e aderir à 29?
As bikes 29 ainda estão caras em vários lugares do planeta. A
indústria internacional teve que acompanhar e seguir esta tendência e
fabricar novos gabaritos. Nesta circunstância, tudo torna-se novo e caro
até virar popular. Por exemplo, peças da mesma marca e modelo, só
porque são 29, algumas chegam a ser 40% mais caro em relação às 26. Para
quem quer praticar o mountain bike como lazer, usando a bike como
passeio ou mobilidade urbana e utilidades alheias, permaneça ainda com
as rodas pequenas. Em qualquer esquina teremos peças tradicionais,
câmaras de ar e pneus; estes dois últimos ainda são “diamantes” no
mercado nacional; difíceis de achar. Por isso que ainda recomendo as
bikes tradicionais para este perfil de usuário. Quando tomar gosto pela
modalidade e quiser investir numa coisa superior, já indico as rodas
gigantes. Tratando-se do uso profissional, eu deixo a resposta para os
diversos atletas do mundo inteiro e alguns daqui do Brasil, que vêm
usando os “tanques de guerra” em suas vitórias contra os “jipes”.
* Willow Koerber foi capa da Revista Bicicleta Ano 01 – nº 04 - Março 2011
* Myles Rockwell foi um dos maiores atletas de downhill da história. O
atleta deu fim na carreira após se preso por plantar e vender maconha
em casa.
* Jaroslav Kulhavy foi o primeiro atleta a se destacar no cenário
internacional com uma bike 29. Ele conquistou tudo que disputou em 2011:
mundial, campeonato europeu e Copa do Mundo de MTB (venceu 5 etapas). O
tcheco já tinha ganho o campeonato europeu de 2010 e outras provas no
mesmo ano.
Nino Schurter* é um dos melhores atletas do mundo, que muitos outros
se espelham. Este suíço é neurótico por peso e contra as bikes 29. Mas a
realidade é que ele é muito baixo e não se adaptou as rodas gigantes.
Tal fato que vem usando bike 650B (aro 27.5) .
(Wagner Figueiredo Silva, o
Guiné, 35 anos, Salvador - BA, teve seu primeiro contato com as bikes 29
no Demo Day da Interbike de 1996. Dois anos mais tarde, na mesma feira,
ganhou uma 29 de Gary Fisher, na base da choradeira. Mesmo tendo que
vendê-la em 2002, por falta de peças no conjunto das rodas (raios, pneus
e câmaras), Guiné nunca abandonou as rodas gigantes, sempre
acompanhando sua evolução.) |